Com o aumento de casos de COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus, a rotina profissional de muitos funcionários e empresas foi alterada às pressas, em todo mundo. Diante a situação, organizações concederam trabalho remoto e férias coletivas como medida para precaver o risco de infecção dos colaboradores e o alastramento do vírus na sociedade. 

No Brasil e em outros países, a lei determina que funcionários que precisam se ausentar por licença médica devem continuar a receber salários e benefícios normalmente. Entretanto, para os trabalhadores informais – que somavam 38 milhões de brasileiros em 2019 -, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seguir a recomendação de isolamento feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é uma tarefa muito difícil. Isso porque a renda dos trabalhadores informais depende, diretamente, do número de vendas ou de prestação de serviço. 

A rotina da diarista Lurdes de Oliveira, de 50 anos, exemplifica a maneira desigual com que o vírus atinge os trabalhadores informais. “Trabalho como diarista e utilizo um aplicativo para conseguir as diárias. Geralmente, faço duas faxinas por dia. Se eu não trabalho, não ganho nada e não consigo comprar comida e remédios. Então, não posso parar. Estou usando máscara de pano e álcool gel, quando consigo. Para ser sincera, não tenho medo de ficar doente. Meu medo atual é passar fome”, conta.

O mesmo vive o motorista de aplicativo Fernando Nunes, de 26 anos. “Realmente é muito complicado. Isso não era o que eu esperava para 2020. Como não tenho outra fonte de renda no momento, é isso. A gente fica com medo, mas não tem o que fazer.”

O médico Roberto Debski pontua que os trabalhadores devem evitar colocar as mãos no rosto e na boca. “Os vírus entram no organismo mais facilmente através das mucosas”, alerta. Além disso, a cada contato com pessoas ou manipulação de objetos em comum, é recomendado lavar as mãos com água e sabonete, por 20 segundos. Caso não seja possível,  deve-se utilizar álcool em gel.

Trabalhadores informais serão mais prejudicados pela crise 

Guilherme Magacho, PhD pela Universidade de Cambridge, professor de economia da UFABC e pesquisador associado da FGV, diz que os mais prejudicados pela crise serão os trabalhadores informais e os trabalhadores por conta própria. “Possivelmente, a renda mensal dessas pessoas será quase zerada neste período, o que levará a uma perda substancial em termos do poder de compra”. Ele lembra que  devemos adicionar os desempregados e trabalhadores em desalento, que devido às medidas de isolamento, provavelmente, não conseguirão emprego. “Isso significa adicionar um contingente de 14 milhões de pessoas à conta dos mais prejudicados.”

O professor, em conjunto com outros dois pesquisadores da FGV, Marco Brancher e Rafael Leão, conduziu um estudo que demonstrou que a crise econômica da pandemia do novo coronavírus será pior do que a crise de 2008. Segundo ele, como as empresas podem ficar sem condições de pagar tributos, funcionários, aluguel e outras contas fixas, o prejuízo em termos econômicos pode ser muito maior.

Magacho defende medidas em diferentes níveis para compensar os impactos negativos sobre as populações economicamente vulneráveis. “Cabe ao formuladores de política, neste primeiro momento, criar condições para minimizar os prejuízos econômicos e sociais da paralisação da economia. Políticas como a de renda mínima emergencial, que foi aprovada pelo Senado, podem mitigar o efeito social. Isso poderá garantir que a população mais pobre tenha recursos para comprar bens essenciais. Aos beneficiários do Bolsa Família, deve-se ter a garantia de que não deixarão de receber o benefício contínuo, caso optem pelo emergencial – esses devem receber o benefício automaticamente”, pondera.  

O especialista também aponta que enquanto medidas emergenciais como essas estão sendo tomadas é necessário já se pensar em um plano de recuperação. “Primeiramente, não será possível, simplesmente, retirar a renda emergencial após três meses. É necessário que o valor se reduza gradualmente, pois a retomada econômica após o período de isolamento não será imediata.”

Coronavoucher

Ontem, dia 30 de março de 2020, o Senado aprovou o projeto que estabelece o pagamento de uma renda básica emergencial voltada para pessoas de baixa renda, trabalhadores informais e intermitentes durante a pandemia do coronavírus. 

Chamado de coronavoucher, o benefício será de 600 reais por pessoa em condição vulnerável e 1.200 reais para mães solteiras chefes de família. Entretanto, a medida precisa ainda ser sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro.

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Brasil está na contramão do mundo

Segundo Magacho, enquanto países como EUA, Inglaterra, Espanha e Alemanha estão em processo de aprovação de medidas emergenciais para contenção da crise econômica que chegam a representar mais de 10% do PIB, o Brasil está na contramão. “O Brasil está efetivando medidas apenas de postergação de arrecadação e medidas de crédito. Isso significa que estamos criando um problema muito grande para as empresas daqui a seis meses, quando essas terão que pagar, além dos custos correntes, as despesas postergadas.”

Em último ponto, o professor explica que é preciso repensar o direcionamento que está sendo dado para o país. “A crise tem deixado claro que a falta de investimento público tem um elevado custo econômico e social. Fala-se em reconversão industrial para produção de ventiladores respiratórios e outros equipamentos médico-hospitalares. Mas, com uma indústria tecnologicamente dependente de importados, isso é bastante custoso – para não dizer inviável. Será necessário mudar a estratégia para investimentos pesados em infraestrutura física e tecnológica para recuperarmos a capacidade de produção industrial e a competitividade de setores estratégicos.” 

Ele acrescenta que o sistema de saúde precisa se colocar como um grande comprador de tecnologia, impulsionando empresas nacionais do setor e consolidando uma indústria de equipamentos de ponta. “Nossa falta de saneamento e a redução do investimento em saúde nos últimos anos tem custado caro nesta crise. Temos um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo e ele deve ser utilizado como vetor de transformação, para que isso não seja mais uma barreira ao enfrentamento de crises”, finaliza.