Mais da metade dos brasileiros se sentiria desconfortável em ter uma mulher à frente do governo e apenas 41% se sentiriam muito confortáveis com CEOs mulheres de uma grande organização. Essa conclusão aparece na nova edição do The Reykjavik Index for Leadership, elaborado pela consultoria Kantar.

Em uma escala de 0 a 100, o índice mede o quanto a sociedade se sente confortável com mulheres na liderança. A pontuação máxima, que nenhum dos 11 países analisados obteve, significa que há um consenso de que mulheres e homens são igualmente adequados no comando.

O Brasil, que figura pela primeira vez no índice, obteve 66 pontos, o que o deixa atrás da Índia, sete pontos abaixo da média dos países do G7 e à frente apenas da Rússia (53 pontos) e da China (48 pontos). Na avaliação de Sonia Bueno, presidente da Kantar no país, o Brasil teve um resultado positivo por estar acima da média do índice, “refletindo uma preocupação maior das empresas com a promoção da liderança feminina e um olhar do governo para o tema”.

Mas ainda é preciso evoluir. “Nós precisamos ver que há 59% de brasileiros que não se sentem muito confortáveis de ver uma mulher como CEO”, afirma Sonia. Ela também chama atenção para o fato de que o Brasil apresenta a maior diferença na percepção de homens e mulheres entrevistados a respeito de uma mulher como presidente do país. Mais da metade das mulheres entrevistadas (52%) se sentem muito confortáveis, enquanto nos homens esse número é de 34%.

“As mulheres confiam que elas próprias podem assumir, mas isso não é recíproco dos homens. Precisamos, como sociedade, entender por que não”, afirma. A metodologia do índice não investiga os motivos, mas mostra que mesmo os países nas primeiras colocações precisam evoluir nesse tema. Canadá e França ganham um ponto em relação a 2018 e a pontuação dos dois alcançou 77 neste ano. 

“É um número bom, mas veja que mesmo nesses países ainda há quase 23% que não se sentem confortáveis com mulheres líderes”, diz Sonia. Quem mais caiu foi o Reino Unido, que perdeu quatro pontos – ficando com 73, em parte devido às frustrações envolvendo a liderança de Theresa May e do acordo com Brexit, segundo a Kantar. 

Do outro lado, quem mais subiu foi a Itália, ganhando cinco pontos – reflexo de um programa do governo para incentivar e promover mulheres nos ministérios. Nesta edição, foram entrevistados 22 mil adultos de 18 a 64 anos – sendo em média 2 mil por país — que trabalham em 22 setores, incluindo tradicionais (como financeiro e automotivo) até de inteligência artificial. De forma geral, o estudo indica que a percepção de homens e mulheres sobre a adequação delas para a liderança varia amplamente entre setores, mas estereótipos persistem em vários países. 

Educação, moda, beleza, saúde e bem-estar são setores considerados mais “adequados” à liderança feminina enquanto defesa, segurança, automotivo, engenharia e aeroespecial são considerados mais “adequados” aos homens.

Entre essas duas pontas, o setor de tecnologia/inteligência artificial, de ciências naturais, farmacêutico e o financeiro se destacam com uma boa pontuação a respeito da promoção da liderança feminina. Segundo o relatório, isso pode ser resultado dos investimentos, em vários países, para formar, desenvolver e promover mulheres na área de STEM (sigla em inglês para o estudo de ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

Fonte: Este texto foi publicado, originalmente, no site Valor Econômico.