D* trabalha no departamento de gestão de pessoas de uma multinacional que, há pouco tempo, anunciou a fusão com outra empresa do mesmo setor. Essa fusão gerou uma insegurança interna entre os funcionários. Afinal, havia uma suposta informação de que, apenas, um departamento de gestão de pessoas seria mantido e que o critério de escolha dos colaboradores que continuariam na companhia seria pela análise de currículo. Logo, muitos colaboradores se matricularam às pressas em cursos de pós-graduação e MBA. “Na época, eu não tinha recursos financeiros para investir no curso que, realmente, gostaria de estudar, então acabei optando pelo curso que tinha o valor da mensalidade mais baixo. Sabia que essa era a única maneira do meu currículo ficar competitivo”, conta. 

“Existe uma indústria de certificados que se alimenta do medo das pessoas. As pessoas têm medo de serem substituídas ou não conseguirem avançar na carreira. E, por isso, são influenciadas a acreditar que precisam investir dinheiro em cursos que, muitas vezes, servem, apenas, para fazer volume no currículo, já que, geralmente, não há uma preocupação genuína com o conhecimento”, afirma, Felipe Waltrick, sócio-diretor de tecnologia da iFractal, empresa que desenvolve soluções para gestão de pessoas.  

Uma das maiores consequências da indústria de certificados é a criação de oportunidades somente aos profissionais que possuem recursos financeiros para investir em cursos renomados, muitas vezes, realizados até no exterior. Quando o profissional retorna com o certificado, o currículo, naturalmente, fica em evidência aos recrutadores. Apesar de nitidamente aumentar a chance de contratação no mercado de trabalho, o certificado não é garantia de mais conhecimento ou de melhor desempenho como profissional. Ao perceber esse cenário, recentemente, o Google deixou de exigir conhecimento em inglês em vagas de estágio exclusivas para negros. 

De acordo com o Google, estima-se que menos de 5% da população brasileira fale um segundo idioma e essa porcentagem é ainda menor entre jovens negros. Após a contratação, a empresa oferece aulas intensivas de inglês dentro do próprio escritório com uma rede composta por colaboradores que ensinam o idioma aos jovens.

“Iniciativas como essa vão na contramão da indústria de certificados, dão oportunidades para os menos favorecidos e estimulam o estudo que é, realmente, importante para a carreira profissional sem criar uma pressão para obtenção de certificados que não irão agregar conhecimento. Para a companhia, há chances de melhores resultados de motivação, engajamento, incentivo à inclusão e diversidade e diminuição da taxa de rotatividade”, completa Felipe.

*O nome foi omitido para sigilo do entrevistado.