Roberta* é especialista de atendimento e trabalha em uma empresa que oferece bebidas e comidas à vontade o dia todo, espaço com puffs coloridos, videogame e pingue-pongue, além de bolsa de estudo, horário flexível, home-office, academia, massagem, fora os benefícios mais comuns como vale refeição, transporte, estacionamento e convênio médico.

Flávio* trabalha para a mesma empresa na função de entregador, porém não tem nenhum benefício. “Não somos funcionários. Somos chamados de parceiros independentes e, mesmo quando trabalhamos de segunda a segunda, por mais de oito horas por dia, não há vínculo. Por isso, não temos benefícios, nem plano de saúde. Nada. Vou levando, ainda sim, é melhor que estar desempregado, já tentei um emprego formal, mas acho que no mercado de trabalho não tem espaço para mim”, relata. Apesar de não serem funcionários registrados, os entregadores são os responsáveis por fazer a operação, de fato, funcionar no mundo físico.

Embora os dois profissionais estejam focando suas energias a favor da mesma empresa, vivem realidades trabalhistas distintas e têm percepções diferentes da marca empregadora. No caso da especialista de atendimento, que trabalha internamente, ela é motivada, valorizada, possui prestígio e perspectiva de carreira. Já no caso do entregador, existe uma precariedade trabalhista de forma velada e ele se apega na crença de que está melhor nessa situação a não ter renda.

Segundo informações do site GPTW (Great Place to Work ou Melhores Empresas Para Trabalhar), as boas empresas para trabalhar são aquelas que valorizam as pessoas, afinal elas são as responsáveis por atingir as metas e trazer bons resultados.

Para medir o quanto uma empresa é boa para trabalhar, há inúmeros prêmios, selos e rankings, o que, abre espaço para um questionamento: por que as empresas adotam benefícios para o público interno de responsáveis por trazer bons resultados e não oferecem benefícios a massa, em números, geralmente, até maior – como no caso dos aplicativos de delivery  -, que faz a operação acontecer e, consequentemente, também traz bons resultados?

Diante dessa situação, no último dia 20, os motoristas do app Uber Eats fizeram uma manifestação em Salvador. Entre as reivindicações, citaram os valores repassados aos motoristas, segurança e direitos trabalhistas.

Para Felipe Waltrick, sócio diretor de tecnologia da iFractal e autor do artigo “A quem interessa a terceirização irrestrita?” publicado aqui, a indústria da premiação cria uma espécie de bolha que engloba, apenas, os beneficiados. “Como os prêmios avaliam, apenas, as condições de funcionários registrados, em muitos casos, pode criar, para sociedade, uma falsa imagem de melhor empresa para trabalhar”, afirma.

Ouça na íntegra a opinião de Felipe Waltrick pelo Spotify ou SoundCloud.

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Caso Loggi

Esse assunto já tem sido debatido na esfera judicial. No início de dezembro, a  Justiça do Trabalho de São Paulo determinou que a empresa Loggi, um dos principais aplicativos de delivery do país, reconheça o vínculo trabalhista dos entregadores que prestam serviço para a companhia.

Na decisão, a juíza Lávia Lacerda Mendez determina que a Loggi limite a jornada de trabalho dos entregadores a oito horas, implemente descanso semanal de 24 horas consecutivas, faça registro em sistema eletrônico de todos os motoristas que tiveram alguma atividade nos últimos dois meses, pague adicional de periculosidade e disponibilize local para ponto de encontro ou espera, com condições adequadas de segurança, sanitárias e de conforto, entre outras exigências. O prazo é de até três meses contados a partir de de 6 de dezembro de 2019. Em caso de descumprimento, está prevista aplicação de multa de 10 mil reais por infração e trabalhador encontrado em situação irregular.

Em nota à imprensa, a Loggi lamentou a decisão da Justiça do Trabalho, reiterou que a decisão pode ser revista e afirmou que “continuará gerando renda” para entregadores, clientes e movimentando a economia. “Para garantir a proteção social aos milhares de entregadores autônomos, a Loggi só cadastra profissionais que sejam microempreendedores individuais, sistema criado pelo governo federal para formalizar os profissionais e assegurá-los aposentadoria e assistência social”, diz a nota.

*Os nomes foram trocados para sigilo dos entrevistados.