Para o profissional de Recursos Humanos é corriqueiro lidar com preconceitos dos mais variados tipos, como exemplo, por questões raciais, sexuais e socioeconômicas.

No entanto, existe um outro tipo de preconceito que, geralmente, passa despercebido e pode ser considerado um dos fatores que mais impulsiona a segregação social: trata-se da discriminação pelas  diferenças na maneira de falar, conhecido como preconceito linguístico.

Nesse contexto, são utilizadas palavras pejorativas, muitas vezes, através de um estereótipo associado as variedades linguísticas, como caipira, baiano, nordestino, roceiro, entre outros. Ana Paula Fernandes, designer, conta que já foi vítima desse preconceito. “Como nordestina morando em São Paulo já ouvi diversas vezes que as variantes linguísticas que carrego no meu vocabulário estavam “erradas”, como o meu sotaque, que já foi taxado como não profissional e minhas expressões como engraçadas.”

ana paula

Marcos Bagno, sociolinguista, professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB) e escritor com mais de 30 títulos publicados – como Preconceito lingüístico: o que é, como se faz (Edições Loyola, 1999), atribui, como origem do preconceito linguístico, a confusão criada entre língua e gramática normativa e afirma que não existe uma forma certa ou errada do uso da língua. Segundo Bagno, existem “erros de português” que não alteram a sintaxe nem a semântica do enunciado: o que muda é, apenas, a ortografia.

Um caso recente de preconceito linguístico, que ganhou repercussão, aconteceu com um funcionário da Prefeitura de Jaciara, no Estado do Mato Grosso. Com a proposta de desejar Feliz Natal, Lindomar Lourenço Martins, 46 anos, que presta serviço para o município há quase um ano, escreveu “felis”, em vez de feliz, em um dos jardins centrais da cidade. Uma pessoa que passava pelo local tirou uma foto, que foi compartilhada em diversas redes sociais. Em poucos minutos, surgiram diversos posts difamando a imagem do trabalhador. No entanto, a prefeitura fez uma postagem na página oficial do município, no Facebook, elogiando a atitude e a simplicidade do erro. “Erros acontecem e todos nós estamos sujeitos a isso. Bom seria se todos tivessem esse mesmo espírito!”, diz trecho.

felis lindomar

“Esse caso consegue exemplificar perfeitamente como o preconceito linguístico é presente na mentalidade do brasileiro, pois apesar da mensagem ter sido passada de maneira clara e ter sido completamente compreendida,  o seu valor foi tido como irrelevante, por parte das pessoas, pelo uso do “s” na palavra feliz”, comenta a designer Ana Paula.

joao

Para João Gabriel Mattos, psicopedagogo no Instituto Aware, a postura da prefeitura foi muito positiva. “O RH adotou uma postura de reconhecer a iniciativa do colaborador, entendendo a sua real intenção. Reconhecer e valorizar o propósito dos colaboradores é importantíssimo nos dias atuais: o colaborador teve uma intenção e o RH foi capaz de perceber e reconhecer o propósito do ato executado, mesmo após uma repercussão negativa.”