O Brasil lidera o ranking de violência contra pessoas transgêneros, segundo pesquisa da ONG Transgender Europe. Entre 2008 e 2015, 802 trans morreram de forma violenta, dado que ressalta o alto índice de rejeição social e preconceito.

Esse preconceito faz com que as pessoas transgêneros tenham que enfrentar diversas dificuldades: desde ao uso do nome social e ao banheiro até para ingressar em escola e encontrar oportunidade no mercado de trabalho.

“São muitos os desafios ao longo da vida. Ainda criança, aos 7 anos,  tive a percepção de minha identidade: me sentia e queria ser uma menina. Na adolescência, quando me assumi transgênero, fui expulsa de casa. Minha família dizia que eu só poderia morar lá se fosse gay e me comportasse como um homem. Na escola, fui estuprada e a diretora me falou – ‘isso que dá ser viado’ (sic), nesse dia acabei abandonando meus estudos. Nunca arrumei um emprego, diziam que eu era muito afeminada, teve um recrutador que chegou a rasgar meu currículo”, desabafa Jhulliana Souza, de 25 anos.

Um dado da Associação Nacional de Transgêneros (Antra) mostra que a prostituição atinge 90% da população trans no Brasil. Entre os 10% que conseguem ficar fora dessa estatística, muitos não conseguem atuar no ramo desejado ou com salário satisfatório.

Windy Souza, mulher trans, de 26 anos, teve sorte em comparação a outros trans. Desde o início, pode contar com o apoio total da família. Ela trabalha como caixa e vendedora em um posto de combustíveis e conta que, no futuro, pretende entrar em um curso para ser veterinária ou psicóloga, mas, por enquanto, além de arcar sozinha com a despesa de aluguel, está esperando a mudança de nome nos documentos. “Tenho pavor de passar constrangimentos na faculdade. Não tenho vergonha de quem eu sou, mas tenho medo da reação das pessoas devido ao meu nome de registro”, diz.

Grupo promove discussão sobre temas transgêneros

Com o intuito de colaborar com a causa, Júlia Galvão, mulher trans, operadora de telemarketing, criou o grupo Mundo Transgêneros no Facebook. “Meu sonho é ver as meninas e meninos transgêneros vivendo em um mundo melhor, sem preconceito”.

Júlia, apesar de ter se percebido transgênero aos 10 anos, só começou a transição aos 30 anos. Hoje com 34 anos, ela conta que, antigamente, não havia políticas de inclusão. “Naquele tempo, o preconceito era bem pior, não tinha discussões sobre direitos humanos e sempre escutava palavras ofensivas como gay, viado e traveco (sic). Como eu não queria uma vida de prostituição, o único jeito que encontrei para ficar empregada era vestida de menino, vivendo uma vida que não era a minha. Mas, felizmente, a empresa em que trabalho agora me apoia para seguir com a transição.”

Para a participante do grupo, Maria Theresa Heim, mulher trans, de 45 anos, estudante de cinema, o preconceito não diminuiu em relação ao passado. “Só mudou de figuras ou armas. Comentários transfóbicos disfarçados de piadas, ouço desde que me conheço como gente. Antes da transição, mesmo me vestindo e me comportando como um garoto, eu sempre fui discriminada pela minha aparência afeminada. Atrasei meus estudos e cheguei a ficar anos sem emprego. Acredito que só estou estagiando agora porque abriram duas vagas para pessoas trans. Quero terminar a faculdade e me firmar como roteirista. As lutas agora são outras e tão vorazes quanto pelas quais já passei.”

Políticas de inclusão

Inspirada pela matriz, a Sodexo Brasil, multinacional francesa de cartão de alimentos, mantém, há 5 anos, uma área dedicada à diversidade, iniciativa ainda pouco usual no ambiente corporativo brasileiro. “Levantamos a bandeira do arco-íris de forma genuína, está longe de ser um modismo: há 20 anos, a Sodexo tem a diversidade como valor no mundo todo. Trabalhamos com a conscientização dos colaboradores em palestras, encontros presenciais, grupos de afinidades virtuais e debates. Recentemente, criamos um guia informativo para despertar o interesse por diálogos inclusivos. Mas, infelizmente, ainda não conseguimos contratar um transgênero”, conta Aline Tieppo, gerente de comunicação interna da Sodexo.

De acordo com Tieppo, o motivo é a baixa escolaridade e falta de capacitação profissional. “Entendemos que esse problema é causado, principalmente, pela evasão escolar. Para conseguir minimizar essa realidade, estamos planejando abrir posições de trabalho para jovens aprendizes. Queremos treiná-los e incentivá-los aos estudos”, explica.

Não se acostume com o que está errado