IMG Artigo Especial Douglas Alves

A felicidade se conquista vivendo, saindo da zona de conforto, amando, sorrindo, trabalhando, viajando e agradecendo. E por que não, quando passamos por momentos difíceis? Isso foi o que aprendi e explico melhor nos próximos parágrafos.

De dentro do armário

Quando começamos a trabalhar em uma empresa, geralmente, não conhecemos ninguém ou quase ninguém. Surgem então algumas inseguranças em relação ao ambiente, ao convívio e à cultura da empresa. Mas, para o profissional LGBT, as inseguranças são um pouco diferentes.

Após o início das relações e a aproximação entre as pessoas, é natural que assuntos como parceiros, hábitos e gostos sejam compartilhados. Nesses casos, é comum que a pessoa LGBT fale sobre seu parceiro como se fosse do gênero oposto. A pessoa abstrai as características do parceiro e da relação na tentativa de se aproximar ao máximo da heteronormatividade. Desse modo, os sentimentos de exclusão e de não pertencimento se tornam comuns. E foi exatamente o que aconteceu comigo.

Abrindo as portas

O ato de “sair do armário”, apesar de difícil, foi natural e gradativo para mim. Começou com muita insegurança e com o compartilhamento da questão com colegas mais próximos. Após algum tempo, relativamente longo, passei a me sentir confortável em falar sobre a minha orientação sexual e sobre os meus relacionamentos com as pessoas, sem a necessidade de assumir algo, sem aquela impressão de dever explicações. Parte disso foi influenciado pelo fato de eu já me sentir confortável em relação a minha orientação sexual nos outros setores da minha vida.

Apesar disso, é importante sempre esclarecer que funcionou bem para mim, mas como isso depende de uma série de fatores, a questão pode ser diferente para cada um. Acredito que se assumir LGBT no trabalho seja como escolher iniciar uma corrida com a possibilidade de estar um passo atrás, mas compreender que esse espaço é necessário para que seja possível correr melhor, com mais conforto.

O lado de fora é doce

Depois que a questão deixa de ser um dilema e passa a ser tratada com naturalidade, fica a impressão de que há uma virada no jogo. Hoje vejo a empresa em que trabalho, como um reduto no mundo, um local em que me sinto livre para me expressar, para ser do modo como acredito e como me sinto.

Quando novos colaboradores entram na empresa é comum que eles se surpreendam com o fato do assunto ser tratado com naturalidade entre todos. Em contraponto, de minha parte, não há mais receio em relação a reação das pessoas, não há receio em relação a julgamentos, pois aqui é estranho ser homofóbico, ao contrário de ser LGBT. Apesar disso, acredito que não haveria um afastamento do novo funcionário por esse motivo, muito pelo contrário, os demais colaboradores, provavelmente, iriam tentar dialogar com ele, a fim de minimizar as barreiras colocadas pelos preconceitos.

Mas mesmo com todo esse avanço, ainda há muito pelo que lutar.

O viado do Carlos

Situações recorrentes, quase diárias, são as piadas e o modo como homens heterossexuais se tratam. Explico: é muito comum que eles usem termos atribuídos a homossexuais para fazer chacota ou diminuir uns aos outros, mas jamais fazem isso diretamente com alguém que é homossexual. É a ideia muito enraizada de que uma pessoa é pior ou menos capaz somente pelo fato de ser homossexual. Essa questão se torna ainda mais delicada por conta da onda da problematização. É muito difícil expressar esse incômodo sem parecer politicamente correto, mas, mais difícil ainda, é conviver com pessoas usando uma característica sua para diminuir outras. Expressões como “trabalho de preto” não seriam vistas com naturalidade hoje, então, me pergunto por que “coisas de bicha” ainda é natural?

O viado sou eu

O que tento fazer, nesses casos, é inverter a lógica que está inserida na cabeça de tanta gente. Quando alguém diz que o Carlos é viado por não gostar de cerveja forte, eu digo que sou viado e adooooooooooro! A partir do momento em que eu me aproprio da palavra, eu me aproprio do meu ser: ser viado é ter o andar corrigido pela mãe a vida inteira, para “andar como homem”, e ter que agradecê-la, porque, talvez, esse seja o único motivo pelo qual você não tenha apanhado na rua, gratuitamente, até hoje. Ser viado é ouvir o seu tio dizer para o seu avô, em um almoço de família, que preferiria ter um filho ladrão a um filho bicha. Ser viado é ter medo de dizer o nome do seu namorado para as pessoas no trabalho, pela possibilidade de ser julgado por quem se ama e não pela sua capacidade.

Então, meu bem, o Carlos pode ser muita coisa, mas viado ele não é.