A vida é um constante aprendizado. Todos os dias, temos oportunidades para aprender e evoluir, basta estar atento e disponível à vida. A história a seguir, leva a uma reflexão mais profunda sobre como a generosidade pode ser vista de diversas formas. Para algumas pessoas, ela está diretamente ligada aos bens materiais: quem tem mais, tem que ser mais generoso. Para outras, é, simplesmente, uma questão de amor e dedicação.

A história começa assim…

Eu sempre sonhei com a adoção, sempre senti que essa seria minha realização da maternidade. Quando conheci a Camila soube que era a pessoa certa, pois ela tinha esse mesmo sonho. Assim, programamos a nossa vida para receber os filhos que viriam.

Como eu tinha planos de acompanhar mais livremente a criação dos meus filhos, me organizei para trabalhar em casa. Nós mudamos de São Paulo para Curitiba, acreditando que precisaríamos de um lugar mais tranquilo para educá-los.

Já morando em Curitiba, quando preenchemos o cadastro de perfil das crianças que desejaríamos adotar, a ficha trazia, entre outras, a pergunta: aceita crianças HIV+?. Nós não víamos motivos para recusar. Conversamos com uma infectopediatra, apenas para tirar algumas dúvidas sobre o tratamento e, logo, tivemos a certeza de que ter uma criança soropositiva não traria qualquer desafio. Além do mais, a maternidade não existe para ser fácil e, se tivesse dificuldades a encarar, estaríamos prontas para isso também. Afinal, o que é ser mãe?

O que não sabíamos é que existiam milhares de crianças nessa condição e que o preconceito era tão grande que a maioria delas não era sequer considerada adotável. Por esse motivo, o processo acabou sendo mais rápido: em apenas dois meses a nossa filha chegou.

Laura nasceu de uma condição bem conhecida nos abrigos: a sua genitora não tinha endereço fixo, fazia programas e era viciada em diversas drogas e álcool. Não foi sua primeira filha, ela teve outros quatro filhos que igualmente foram destituídos quando nasceram. Ela era HIV+ e não se tratava. Na hora do parto, ela estava sob efeito de crack e não informou aos médicos a sua condição. A bolsa já havia estourado e Laura foi infectada ao nascer.

Ela, muito pequena, ficou por 10 dias em observação no hospital, onde já começou a tomar os medicamentos para controle da carga viral. Depois disso, foi enviada a um abrigo em que ficou isolada e sofreu o segundo abandono afetivo. Até os 18 meses, ela nunca havia comido alimentos sólidos e tinha medo de pessoas, não falava e não andava.

Uma profissional soube de sua situação e trabalhou intensamente para que ela se recuperasse e desenvolvesse normalmente. A partir daí, ela começou a se desenvolver e aprendeu a andar – foi como a conhecemos, aos 2 anos e 1 mês.

Laura era uma criança difícil por conta desse histórico. Tinha muito medo de tudo e demorou a confiar em nós. Ela não me aceitou facilmente, e eu não tive maturidade para lidar com essa rejeição – nós sofremos muito até encontrar o meio certo de nos aproximarmos e deixar o amor fluir. Ao mesmo tempo, ela era muito doce e sensível. Era perceptível que parte dela lutava para aceitar o que estava acontecendo. Esse processo, mesmo sendo o mais difícil, foi o mais importante de todos, pois dali se criou um vínculo tão forte que nossa relação se tornou inabalável.

Por si só, a adoção ainda é motivo de preconceito. O fato de a Laura ser negra gera muitos comentários horríveis que as pessoas não percebem. Já escutei frases como “ela não é sua filha de verdade”, “também queria pegar uma neguinha como a sua para criar” ou “você pretende ter filhos de verdade, um dia?”.  Felizmente, as pessoas que mais nos importam, sempre estiveram, totalmente, ao nosso lado.

Sobre o HIV+, nunca tivemos uma declaração evidente, mas já soubemos de pais que afastaram os filhos por medo. Muitas vezes, escutamos comentários maldosos ou de pena, que também julgo como fruto de preconceito: “coitadinha dessa menina, a vida dela acabou” é um exemplo frequente. Esse é um grande absurdo, pois ela leva e levará uma vida totalmente normal e saudável. Laura tem acompanhamento pelo SUS de uma infecto pediatra em consultas trimestrais e, duas vezes por ano, a médica solicita um exame completo para avaliar a carga viral. Além disso, ela toma um remédio todos os dias, de 12 em 12 horas, fornecido pelo SUS também.

Quando me procuram com dúvidas sobre adotar uma criança soropositiva, sempre digo: pesquise, se informe e livre a sua mente de preconceito. A criança já existe, ela está lá em um abrigo e crescerá sendo HIV+. A diferença é que, se ela tiver amor, família, apoio e  suporte, a vida dela será infinitamente mais fácil.

Não falo de caridade, falo de responsabilidade: nós só precisamos nos responsabilizar por eles e ensiná-los a viver com sua condição. Uma criança soropositiva não é um problema, não é um fardo. Ela é uma criança viva e cheia de vontades, como qualquer outra.