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Chocolate da Barbie, mochila do Mickey e até espumante do Batman. Ir às compras é uma verdadeira tentação para as crianças e um desafio para os adultos. Uma pesquisa do Instituto InterScience apontou que as crianças influenciam em 80% das decisões de compra da família. Segundo o estudo, elas opinam não apenas em brinquedos ou guloseimas, mas sobre todo tipo de produto consumido dentro de casa. Por isso, crianças são um alvo importante para os anunciantes, para as agências de publicidade e para os veículos de comunicação, que lucram com os anúncios.

Aprovada em março de 2014, a resolução número 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), considera ilegal a publicidade a direcionadas às crianças, porque, por serem indivíduos em desenvolvimento, não conseguem diferenciar o conteúdo de entretenimento do comercial.

Atento, o projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, enviou, em abril do ano passado, cinco denúncias aos Ministérios Públicos de São Paulo e Paraná e para os Procons de São Paulo e do Espírito Santo. A advogada Isabella Henriques, diretora do Instituto Alana e coordenadora do projeto Criança e Consumo, explica que o objetivo do Instituto dedicado à defesa dos direitos da criança não é acabar com a publicidade, mas garantir seu direcionamento apenas para os adultos, assim como acontece em países como Noruega, Suécia e a Província de Quebec, no Canadá.

Prejuízos

Isabella explica que a publicidade direcionada ao público infantil agrava problemas sociais e de saúde pública como o consumismo, a formação de valores materiais, a obesidade, a  erotização precoce e a violência. “O incentivo ao materialismo faz com que a criança acredite que os bens materiais são imprescindíveis para ser feliz. Alguns produtos, como doces e fast food, são atrativos para os pequenos por um único motivo: carregam personagens famosos na embalagem. Com isso, as criança estão consumindo, cada vez mais, alimentos com excesso de sódio, gordura saturada e açúcar. Os dados do IBGE mostram que 15% das nossas crianças são obesas e 30% delas estão com sobrepeso.”

De quem é a responsabilidade?

Segundo o artigo número 227 da Constituição Federal, as responsabilidades são de todos. “Um pai não consegue lutar sozinho em meio a publicidade onipresente. Cada um, em sua capacidade, deve fazer tudo que estiver ao seu alcance. O Estado tem obrigação de promover a regularização adequada sobre o tema, os pais e educadores têm que explicar como a propaganda funciona e, à sociedade cabe, por meio das empresas, pensar no bem estar das crianças”, afirma.

Entrevista com Caio Carraro, pai e profissional especialista em comunicação e mercadologia

P.: Qual é a sua opinião sobre a publicidade dirigida ao público infantil como pai e comunicador?

Como profissional da área de comunicação, procurei estudar muito sobre essa questão, debati exaustivamente com colegas de profissão, amigos com filhos, observei mais de perto familiares e até fiz algumas experiências. Tudo para ter certeza de que o corte que faria na própria pele seria por uma boa causa, afinal, um profissional de comunicação, especialmente da área de criação, admitir que a publicidade infantil é, de fato, nociva, é algo bem dramático, ainda mais, na época, que resolvi levantar a questão e expor as brechas e caminhos “criativos” de como tudo funciona, no meu próprio TCC, de título “O perfil do consumidor adolescente e o mercado de consumo consciente, de 2006. Isso tudo aconteceu bem antes de me tornar pai, mas foi o suficiente para clarificar minha opinião, hoje, com dois filhos de 3 anos.

P.: Como você costuma frear esse assédio dentro da sua casa para tornar os seus filhos consumidores conscientes?

No meu caso, entendo que o problema não é dentro de casa, mas fora. Entendo também que o hábito dos pais reflete diretamente nos hábitos dos filhos, seja quanto a entretenimento ou no simples consumo de alimentos. Um exemplo de filtro natural, que já acontece bem antes sermos pais, é o fato de que há anos eu e minha esposa não temos TV à cabo ou sinal de qualidade dos canais abertos. Assistimos TV, conectada à internet, apenas para filmes e séries de serviços como Netflix. As crianças, nesse contexto, se resolvem muito bem brincando pela casa, desenhando, moldando massinha, essas coisas. O máximo que assistem, às vezes, são desenhos selecionados por nós, fora isso, eles não têm contato nenhum com comerciais diretos, como no caso de canais infantis na TV aberta ou à cabo.

Já ouvi muitas críticas sobre eu estar criando filhos dentro de uma bolha, mas esse discurso é muito vazio, pra não dizer, tacanho, já que não se trata de superproteção dos filhos, mas resgatar o prazer de brincar, criar e se divertir sem dependência de estímulos externos de via única. É incrível o que uma criança desconectada da TV é capaz de fazer quando está conectada a um lápis, papel e espaço para interagir com todo o ambiente.

Mesmo sem propagandas diretas, sabemos que muitos desenhos são transformados em toneladas de brinquedos e que, em algum momento, eles terão acesso, seja em um shopping ou supermercado, mas não me preocupo com o que possa acontecer, já que sou bem consciente sobre o assunto e de como devo proceder. Defendo a luta e todas as iniciativas que vão contra a publicidade infantil, mas acredito que precisamos ir além, educando nossos filhos sem medo, dando bons exemplos.